Recordo que na minha infância passada no Jardim São Domingos, no Butantã, era comum periodicamente instalarem-se circos e parques nos terrenos baldios existentes em abundância naqueles anos de 1960. Região ainda em formação, distante do centro, era praticamente um descampado com poucas residências, um comércio sofrível e uma quantidade enorme de terrenos baldios onde, periodicamente, se instalavam parques de diversões capengas e circos mambembes.
O circo me fascinava, cuja paixão perdura até hoje. Lembro-me que frequentemente se instalavam por vezes parques de diversões com brinquedos limitados, em precárias condições de segurança, e alguns circos mambembes.
Com relação ao circo, além da fascinação, está vivo na memória fato ocorrido num domingo à tarde, quando o Circo e Teatro Joia, do palhaço Rebian, estreava as novas lonas impermeabilizadas com um produto inflamável. O locutor Ditinho anunciava as atrações: Grande tarde hoje no circo Joia. No picadeiro: Rebian, o palhaço que fez rir mais de 5 mil crianças no ginásio do Ibirapuera, e no palco o astro do rádio e da televisão, o ídolo da mini guarda, Ed Carlos. Quem não vier o que é? É goiaba!
Casa cheia, mas naquela tarde não pude ir, não tinha como pagar. O espetáculo se desenrolava com atrações variadas antecedendo o ídolo que à época ainda fazia sucesso. De repente gritaria geral:
— Fogo! Fogo!
O caos é instalado. Do campinho onde jogávamos futebol, víamos a fumaça cinza se elevando, corremos em direção ao circo. Na contramão encontrei com o estimado amigo Eugênio, ainda mais branco em desabalada carreira rua abaixo. Quando nos viu parou para dizer:
— Pegou fogo no circo!
— Pegou fogo no circo!
Os bombeiros não chegaram a tempo de apagar o incêndio. Sobrou apenas o mastro central. Dentre todos os espetáculos que eu presencie em um circo aquele foi o que mais me marcou: no centro do picadeiro, Rebian abraçado à mulher grávida, com os filhos ao redor, choravam desolados. Nunca mais me esqueci de Rebian e sua família encenando a tragédia da vida real naquele picadeiro, em meio às cinzas que outrora proporcionara tanta alegria.
Essa é uma pequena homenagem ao palhaço Rebian, o Carioca, do Circo e Teatro Joia, que me fez soltar muitas gargalhadas na infância e contestar desde então a frase que diz que “alegria do palhaço é ver o circo pegar fogo”. — É não!
Samuel De Leonardo (Tute)
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